O romance de Teresa Bernard, por Maria José Dupré (Sra. Leandro Dupré)

Quando uma escritora iniciante alcança mais do que as expectativas: O lançamento de O Romance de Teresa Bernard, da Sra. Leandro Dupré, em 1941.


por Daniel Medeiros Padovani

Capa da 1ª edição, publicada pela
Civilização Brasileira em 1941
Era o começo da década de 1940. Em uma reunião na sede da Companhia Editora Nacional, em São Paulo, pessoas discutiam o futuro de uma escritora iniciante. A autora do livro, que teria todas as despesas da publicação pagas por seu marido, disse que preferia usar um pseudônimo e sugeriu um que ela havia usado ao escrever um conto para um jornal: Mary Joseph.

Mas o pseudônimo escolhido pela autora gerou polêmica, já que o editor, Arthur Neves, tinha a opinião de que um romance com tal pseudônimo já estava condenado ao fracasso. Muito foi discutido, ideias foram trocadas, pessoas foram consultadas. Por fim, o marido da escritora, Leandro Dupré, presente na reunião e o grande incentivador da esposa, sugeriu: "E se ficar Senhora Leandro Dupré? O que o senhor acha?"

Capa da 3ª edição, publicada pela
Editora Brasiliense em 1944
A sugestão foi aceita e em 1941 chegava nas livrarias, em publicação da editora Civilização Brasileira (pertecente a Companhia Editora Nacional), um livro de 452 páginas, de uma desconhecida e iniciante Sra. Leandro Dupré,  intitulado O romance de Teresa Bernard. Alcançando sucesso imediato, a edição se esgotou em pouco tempo, proporcionando rapidamente ao engenheiro Leandro Dupré a recuperação de todo capital investido no lançamento da esposa como escritora. E é claro que uma nova tiragem do romance foi providenciada, dessa vez totalmente custeada pela editora (a 2ª edição foi lançada em 1943). Respondendo a uma questão que Leandro Dupré disse a esposa em tom de brincadeira naquela reunião ao sugerir o uso de seu nome como pseudônimo ("Iremos juntos para o sucesso ou para o fracasso..."), o caminho trilhado pela nova escritora seria de sucesso...

A Sra. Leandro Dupré continuaria a publicar muitos outros títulos de grande alcance popular, inclusive para o público infantil, durante toda a década de 1940, 1950 e 1960, usando o nome de seu marido. Mas a partir de 1965, ela adotaria seu próprio nome, Maria José Dupré, nome usado atualmente nas frequentes reedições de muitos livros de sua autoria. Acho que agora o leitor do blog percebeu sobre quem estou escrevendo: a autora dos clássicos Éramos seis, A ilha perdida e O cachorrinho Samba, livros que conduziram muitas crianças ao fantástico mundo da literatura e os tornaram leitores para a vida toda. Eu, por exemplo, fui fisgado ao mundo literário pela A ilha perdida.

Maria José Fleury Monteiro, o 8º filho do casal Antonio Lopes Monteiro e Rosa Augusta de Barros Fleury, nasceu em 1 de maio de 1905 na fazenda Bela Vista, na cidade paulista de Botucatu. Alfabetizada pela mãe e pelo irmão mais velho, Maria José estudou música em aulas particulares e pintura no Colégio dos Anjos, em Botucatu. Mudou para São Paulo, a capital do estado, onde cursou a Escola Normal Caetano de Campos e se formou como professora. Logo em seguida veio o casamento com o engenheiro Leandro Dupré, passando então ao nome de casada: Maria José Fleury Monteiro Dupré.

Fotografia da escritora
Fotografia da escritora na década de 1940
Maria José Dupré iniciou seu entusiasmo com os livros antes mesmo de começar a frequentar a escola. Seus pais tinham o hábito de ler e desde pequena Maria José já havia entrado em contato com os clássicos literários portugueses e mundiais. Sua carreira literária iniciou devido ao incentivo do marido, que costumava dizer que suas narrativas eram contos orais que mereciam ser escritos. Com esse incentivo, ela publicou no suplemento literário do jornal "O Estado de S. Paulo" seu primeiro conto, Meninas tristes, usando o depois rejeitado pseudônimo Mary Joseph. Do conto para o sucesso do primeiro livro foi um pulo.

O romance de Teresa Bernard, a história de uma mulher rica e culta, que procura encontrar, no ambiente luxuoso em que vive, um companheiro digno de seu amor, trouxe temas polêmicos para a época de seu lançamento, como a vida de uma mulher divorciada. O livro é narrado em primeira pessoa pela própria Teresa, que tem contato durante a narrativa, entre outros personagens, com Artur, Angelina, Dick, Elisabeth, Lucio, Luis Alberto, Malena, Maurice Leblanc, Tia Linda, Tia Olivia, Tio João Lins e Tianinha, inclusive durante sua viagem pela Europa.

Capa da 8ª edição, publicada pela
Editora Saraiva em 1957
por Nico Rosso
No Brasil o livro foi publicado inicialmente pela editora Civilização Brasileira (1ª e 2ª edição, 1941 e 1943). Posteriormente, ele passou a ser publicado pela editora Brasiliense (3ª a 7ª edição, entre 1944 e 1951) e pela editora Saraiva (8ª e 9ª edição, 1957 e 1967). Desde a sua última edição em 1967, já se passaram 50 anos (em 2017).

Capa da 9ª edição, publicada pela
Editora Saraiva em 1967
por Nico Rosso
Apesar do grande sucesso alcançado por O romance de Teresa Bernard, o maior sucesso da Sra. Leandro Dupré, ainda estava por vir. O seu segundo romance, lançado dois anos depois, alcançaria números surpreendentes e continuaria sendo querido e lido pelos brasileiros até os dias atuais, mais de setenta anos após seu lançamento. Mas esse será o assunto da próxima postagem... [link]

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 “Chegou a hora do nome. Eu disse que preferia um pseudônimo, o mesmo do conto: Mary Joseph. Houve discussão, troca de ideias, outros foram consultados. Ninguém compraria um livro de autor desconhecido e com nome esquisito. Imaginava os sorrisos engraçados: "Agora você virou romancista? Escritora?" E se ninguém comprasse? Se o romance não tivesse sucesso? Artur Neves falou com energia: "Um romance com esse pseudônimo estaria condenado ao fracasso..." Leandro teve uma ideia: "E se ficar Sra. Leandro Dupré? O que o senhor acha?" Voltou-se para mim e disse brincando: "Iremos juntos para o sucesso ou para o fracasso..."
 (trecho extraído da autobiografia da autora, Os caminhos, publicado em 1969 pela editora Saraiva)

Editora Brasiliense, 1951
Editora Brasiliense, 1947


Um comentário:

  1. Olá! Esse livro ,tenho a primeira edição e ainda autografada pela Maria José Dupré!! Esse livro não vendo , não empresto !! è o livro da minha vida!! Amo todos os personagens, muito linda a história!!! Acho q se alguma emissora desse atenção ao roteiro a historia poderia virar mini-série!!! Recomendoo!!

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